ontem minha chefe do trabalho, sem o menor aviso, me abraçou, dizendo pra eu nao ficar assim, pra nao fazer isso comigo mesmo, pois as coisas passam e melhoram. minha chefe. eu congelei, travei, como assim minha chefe tá aqui me consolando? de qualquer forma, apesar da boa intenção, ela nada mais fez do que todas as pessoas estão fazendo agora. pq, quando estamos tristes, legitimamente tristes como eu estou agora, há duas reações que as pessoas ao redor costumam ter: primeira, tentar nos animar com palavras de incentivo, mantendo um ânimo alegre quando perto de nós, como que para nos contaminar com aquela alegria. segunda, nos reprimir dizendo que é exagero, que há coisas piores, que já tá mais que na hora de sair dessa condição.
meu amigo, estar triste não é algo que dependa de como eu me porto diante da tristeza. em geral, não se gosta de estar triste. não estou triste por incompetência da minha força de vontade. simplesmente estou triste e não posso evitar, pois estou triste de uma maneira tal que qualquer pequena manifestação de felicidade externa me dá ânsia, e se eu involuntariamente esboço um sorriso em resposta a algo cômico ou semelhante que tenha acontecido, no segundo seguinte me sinto culpado por ter tido aquela sensação, como se eu não estivesse na posição de ter qualquer tipo de alegria, e que rir de qualquer coisa é a ironia maior - pois todas as coisas estão rindo de mim, minha cama está rindo de mim, minha roupa está rindo de mim, meu violão está rindo de mim. só não riem de mim o álcool e o cigarro, pois estes são claros em seus contratos: nós te anestesiamos, mas tiraremos duas coisas - o bem estar do dia seguinte e alguns anos de vida, no futuro.
eu pensava, secretamente, que o que as pessoas podiam fazer para me ajudar nesse momento era simplesmente ficar comigo, quietas, fazendo companhia. não tentando me distrair com nada, não conversando quando eu não não quisesse conversar, simplesmente estando ali, e me fazendo cafuné. mas isso exige muito de quem quer que seja, e não tenho amigas do sexo feminino dispostas a fazer isso por mim. meu melhor amigo, o poeta famoso do futuro, se ofereceu para vir aqui, e sinceramente? eu nao quero, quero ficar sozinho, nao quero olhar pra ele e ter vergonha, pois ele saberá, só de me encarar, tudo que aconteceu, e será inevitável que sinta pena. então, essa última opção, que era me isolar do mundo completamente na esperança de que alguém se lembrasse de mim e viesse com a mão estendida em auxílio de salvação, como um anjo silencioso, bem, era somente uma daquelas esperanças fátuas que funcionam muito bem na sua imaginação.
e logo eu, que era relativamente popular nos meus tempos áureos, que tinha amigos e conhecidos para todos os lados e nunca estava sozinho... há de se convir que eu era uma boa companhia. nunca fui o rei da festa, mas tenho convicção que metade daquele IEL já tinha ouvido falar no rapaz que andava de chinelo e usava fones de ouvido gigantes. em festas, eu era convidado, reconhecido, integrado e feliz. porque? porque oferecia algo bastante conveniente, vocês me davam o calor de vossa companhia festiva, e eu lhes devolvia a mesma coisa. agora, meus caros companheiros, percebendo que estou triste (vou repetir a palavra incessantemente, afinal, é ela mesmo), oferecem sim a mesma companhia festiva, mas eu não respondo a ela, e devagarzinho eles desistem. porque pra ajudar alguem que está na merda, voce tem que abrir mao da sua felicidade momentanea e se jogar na merda com ele, passar pela merda junto com ele, por um tempo indeterminado. e isso é chato, é ruim, é difícil, e eu nao culpo ninguem por nao percebe-lo nem tomar a iniciativa, pois eu só percebo isso agora.
para encerrar o post das 8 da manha de um sábado (agora acordo cedo e nao consigo mais dormir, como se nao bastassem as horas regulares de quem era muito dorminhoco), ontem eu criei vergonha na cara e fui falar com a ruivinha dos correios. sim, ela é uma nova personagem, foram mais de dois anos sem postar e nao pense que nada aconteceu nesses ultimos dois anos, apesar dos meus esforços em ressaltar somente A Big. a ruivinha nada mais é que a mulher mais linda que eu já vi. desbancou todas as outras. mas eu nao sei absolutamente nada dela, nunca tive oportunidade de conversar por muito tempo com ela. ela tem um sotaque esquisito, nao sei identificar de onde. ontem, eu fui la no balcão dos correios, olhei nos olhos dela e falei que ela já devia ter percebido que eu passo o dia inteiro olhando pra ela, e que eu precisava tentar uma aproximação, e que portanto aqui estava meu telefone e meu email (é meu novo método, hit and run, leave the email). ridículo. diferente da mocinha do aeroporto, com quem eu nao me importava e a quem eu nunca mais veria, a ruivinha (obvio que ela nao me mandou nenhum email) vai estar sempre lá para me lembrar de que meus esforços titânicos de abordagem são patéticos e falhos, que toda a coragem que eu tive que agrupar não serviu de nada, que ela deve ter namorado e ser muito contente (apesar de que seu olhos sao tristes, do jeito que eu gosto), e que eu sou sozinho. a única coisa que me agradou nessa historia toda foi que eu fiquei, por uns 30 minutos, nervoso, e isso me tirou da tristeza - por 30 minutos.
também decidi, e espero me manter firme na minha resolução, nao mandar mais emails pr'A Big. não sei se já falei isso aqui no blog, mas nao bastasse ela nao me amar mais e ter (vou suprmir essa parte, pois se um dia ela ler, do jeito que ela é histérica, vai ficar com raiva, e eu nao quero ter o trabalho de mandar ela praquele canto), ela nao demonstra um pingo de preocupação comigo. essa sensação de que ela está muito mais preocupada com seus afazeres diários e com sua nova fantástica paixão do que comigo é aquela gota que faz você nao aguentar mais. eu podia estar no hospital agora que ela iria mandar uma amiga qualquer entregar um recado qualquer de duas linhas, com algo como "melhoras!". e se ela tiver ainda o mínimo de memória de mim, vai perceber que ontem eu nao mandei email algum pra ela, e vai pensar "puxa, que bom, ele está me superando. vou ajudar ficando longe e nao mandando emails também". errado, Big, resposta errada. e talvez ela nem perceba.
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