segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

back in the saddle

cem mil leitores que visitam este blog,
estou postando pela primeira vez após mais de dois anos e meio. meu deus! quando a necessidade imperou de modo tal que eu fui forçado a tirar a poeira do blog e desabafar aqui para os mins que nascerão amanhã, nao lembrava que havia passado tanto tempo assim. a ultima postagem data de março de 2008, e tanta coisa aconteceu de lá pra cá, sendo somente uma delas relevante, sobre a qual irei tratar aqui, que eu estou convencido de que realmente nada daquilo foi vivido por mim, e sim por outra pessoa que deixou aos poucos de existir, para que o atual eu emergisse. por sua vez, é uma questão de tempo até que lentamente eu vá perdendo as minhas características atuais, até que finalmente esteja tão irreconhecível por mim mesmo que possa me considerar verdadeiramente outra pessoa. por fim, é uma questão de um tempo um pouco maior até que parem de brotar esses novos eus, e tudo se acabe.

e qual foi a única coisa relevante que aconteceu nesse entretempo? ai, estou eu usando do artifício mais ingênuo da oratória, que é retomar o gancho sutilmente disposto no parágrafo anterior em forma de pergunta, e continuar o desenvolvimento do texto a partir daí. pois bem, vamos responder, então - o problema é que, nesse momento no qual escrevo, ainda não sei como chamá-la aqui no blog. claro que é uma mulher - na vida dos homens mundanos e comuns, e suspeito que também nas dos influentes e poderosos, as únicas coisas relevantes estão ligadas ao amor. no meu caso, como eu acabei caindo no lado hétero do mundo, nada mais natural que minha vida tenha sofrido uma reviravolta nos ultimos 30 meses (!) em função de uma mulher.

sempre tento evitar nomes, ainda que quem me conhece saberá facilmente distinguir quem são a fada dourada, a lilith, a succubus, a imperatriz sorridente, o anjo da tequila, a "júlia"... talvez elas, se ocasiosalmente tiverem passado por esse blog, tenham se reconhecido. pausa para adendo: eu me impressiono, hoje, por ter criado esses pseudonimos tão espertinhos, que fazem na maioria das vezes uma piada fonética ou ressaltam uma característica fundamental das memórias que elas imprimiram em mim, quando não as duas coisas. e me impressiona mais que eu não consiga criar agora um pseudônimo para ela. mas tenho que criá-lo, ou esse post morrerá aqui.

então, do parágrafo anterior para o atual, devem ter se passado uns bons 30 minutos: o que para você foi apenas um lance de olhos instantâneo foi, na perspectiva deste que lhe escreve, um período de criação de personagem de inestimável importância. então, ainda que o que eu consegui bolar esteja infinitamente distante da sagacidade que se gastou inteira durante as anteriores, para que eu me lembre de que uma das coisas que mais fazíamos juntos era assistir a seriados imbecis, vou chamá-la de Sra. Big. e sim, eu estou citando (deus me proteja!) sex and the city. Lamentavelmente, por mais que a carrie termine a série junto com o Mr. Big, a história que se passou entre mim e A Big terminou há 3 semanas atrás.

mas vamos fazer o flasback... pra que contar o final assim, se não houver o começo? eu me recordo de que em meados de março de 2008 eu já havia a conhecido, mas ela não tinha a menor importância na minha vida. eu estava envolvido com o anjo da tequila, e não queria outra coisa da vida: a regularidade das sextas feiras e o fascinante mundo das pessoas adultas e independentes era mais do que eu poderia querer. eu estava bastante satisfeito. mas aos poucos A Big foi se insinuando no meu dia a dia, e fomos ficando um pouco mais próximos e mais amigos, até que eu e ela demos nosso primeiro beijo um mês antes do meu aniversário, no velho matadouro universal conhecido como cinema, numa sugestão de "quer chiclete? morde metade do meu chiclete aqui, ó". ai, como é complicado escrever sobre isso agora. eu era um cafajeste sem precendentes, e encarei aquilo como nada mais do que era na época: uma oportunidade.

não sei o que ela fez. talvez nao tenha feito nada específico. as coisas estão bem menos sob nosso controle ou sob controle alheio do que supomos, e o que atribuimos muitas vezes a nossas ações e nossos méritos ou a ações e méritos alheios são mero acaso. ou talvez, para quem não gosta do termo "acaso" (eu nao gosto), são resultado de uma complexa rede de conjunturas, interesses e pequenas decisões que, somadas, fogem da nossa capacidade de compreensão ou manipulação. as coisas acontecem, e nós estamos ali. não que não tenhamos nenhuma responsabilidade sobre elas; temos, e é enorme. mas elas ultrapassam nossas expectativas iniciais, subvertem nossas intenções, transformam nosso âmago. e assim, de por vias insondáveis, eu me apaixonei por ela. não foi rápido assim. A Big teve que sofrer uns bons meses na minha mão até que eu percebesse que eu me importava com ela de uma maneira esquisita, e decidisse abandonar a vida que levava até então para me dedicar somente a ela. e, pelas razões já anteriormente expostas, acabamos, depois de mais ou menos um ano de namoro, indo residir sob o mesmo teto.

eu mudei completamente. o fogo de leitura, escrita e farra mirrou até não existir mais. minhas ambições foram cuidadosamente lacradas num lugar inacessível, e eu as perdi para sempre - agora, só recriando tudo do zero, do chão, com muito esmero e paciência. minha convivência social foi expurgada, e eu afastei meus amigos sem notar, da maneira mais vergonhosa que vocês puderem imaginar - a sutil, a lenta, a gradual, aquela que se justifica por não se fazer notar. tudo era ela, minha vida foi reconstruída em torno dA Big, e eu era genuinamente feliz.

talvez em outros posts eu descreva um ou outro momento específico que passamos juntos, ou talvez eu enterre esse assunto nesse post para nunca mais voltar, não sei ao certo. mas aqui, que já está gigante, não é o lugar para destacar os auges de nosso relacionamento. até porque isso machuca. muito. eu mal consegui vir até aqui.

infelizmente, a vida marital tem seus contras. eu devo admitir que me acomodei bastante. criamos uma rotina e nos apegamos e ela, deixamo-la deslustrar aos poucos, deixamos isso virar normal. mas eu ainda a amava. eu era feliz com o que tínhamos, até porque eu não tinha mais nada. talvez tenha sido esse o erro crucial. não dá pra saber - já expliquei que acredito que não é uma ou outra coisa que define o destino das pessoas, e sim uma série infinita de fatores. ela acordou um dia e não gostava mais de mim. pior: gostava de outro.

eu nao quero mentir aqui - afinal, só tenho cem mil leitores futuros. eu pensei muitas vezes em terminar com ela por razões diversas, mas nenhuma delas era forte o suficiente que me fizesse levar a idéia adiante, e a felicidade que eu sentia nos momentos íntimos compensava toda a estranha inquietude que me acometia quando eu estava sem ela. porque alguma coisa dentro de mim ainda lembrava meus hábitos antigos - uma necessidade de beber um pouco, de fumar um pouco, de ser cara de pau e paquerar aleatoriamente, de ver coisas novas, de implorar pelo inesperado. devo ter usado o termo antes no blog - aquela vontade de que tudo seja extraordinário o tempo todo. ela não era assim. ela estava longe de ser a mulher ideal, minha julia pessoal, mas eu a amava! talvez eu não queira dizer, mas eu a amo ainda. sim, eu a amo. e se é verdade que essa contradição se manifestava com uma certa frequência, também é verdade que ela sempre era aplacada depois, nos braços dela.

por mais que eu tenha admitido ali acima que eu a amo, eu nao quero que ela volte. afinal, 1-) isso não vai acontecer, e querer isso é dar murro em ponta de faca, e 2-) mesmo que ela voltasse não seria a mesma coisa nunca mais. eu queria, sim, que o tempo voltasse, que eu passasse por tudo isso de novo. mas isso cai novamente na razão 1, ou seja, é impossível.

e eu devo encerrar esse post dizendo que, agora que acabamos, não aconteceu o que eu esperava. minha ânsia por liberdade não foi satisfeita. ainda me sinto prisioneiro dela, só que agora ela não vigia mais a cela: jogou a chave fora e foi embora. eu era feliz. nao sei o que acontece agora. minha necessidade de que tudo seja fantástico não está me incomodando, pois a ausência dela preencheu por completo a câmara das inquietudes diárias. tudo que eu havia perdido - meu fogo, meus amigos, minha vida inteira - não voltou quando ela desapareceu. tentei acender isso nas ultimas semanas, incentivei velhas práticas, mas foi inútil, nada serviu. e agora eu só consigo ficar sozinho, chorando, ouvindo radiohead (ok, outra pausa, eu odeio radiohead, e de repente, após o término, é uma das poucas coisas que eu consigo tolerar), porque isso é a coisa mais digna que eu posso fazer enquanto nesse exato momento ela está com ele, transando com ele, provavelmente, abraçada com ele, e eu estou gripado e insone.

lembro da cena de closer, um dos filmes que me fizeram chorar na minha adolescencia, na qual o ator que não é o jude law descobre que a julia roberts está transando com o jude law. ele pergunta os detalhes do sexo para ela, agressivamente, berrando e quase a agredindo, partindo do princípio sem o menor fundamento de que naturalmente o sexo do jude law é melhor, que o pau dele é maior, que o cheiro dele é mais gostoso, que ela berrou mais, etc. eu me sinto como ele. mas não tenho energia ou aquele caráter pra fazer esse tipo de coisa.

eu percebi também que a coisa que eu mais quero agora, que eu mais preciso, é de outra namorada urgentemente. não de outra mulher qualquer, não de sexo - ajudaria um pouco, mas eu nao sei mais paquerar, nao sei mais como isso começa, e nao tenho mais grupo social que me permita qualquer tipo de apoximação -, mas sim de uma namorada que dormisse todos os dias na mesma cama que eu, e que abraçasse minha cabeça quase maternalmente, mas com aquela diferença fundamental que as distingue de nossas mães, que compartilhasse cada segundo do seu dia comigo, não presente o tempo todo, mas pensando o tempo todo em mim. e claro que isso não vai aparecer tão cedo, não agora, justamente porque eu preciso disso; o universo tem a mania de aguardar o momento certo de nos dar as coisas, e parece-me que esse momento é quando nós não estamos mais esperando por elas, quando estamos distraídos delas, ainda que ainda a queiramos. e agora eu tenho que sofrer bastante, pela primeira vez na vida é imperante que eu atravesse sozinho esse tipo de sofrimento, o tempo que for necessário. sem finalidade alguma, imagino, mas as coisas simplesmente não podem ser de maneira diferente. ou é isso ou eu morro, e morrer definitivamente não é uma opção, eu gosto de viver, mesmo que seja na merda. me pergunto quanto tempo esse merda vai levar pra curar. até agora nao melhorou em NADA. talvez postar, marcando a data, me ajude a fazer os cálculos depois, bem depois, e achar essa resposta, quando ela não importar mais.

ia terminar assim, com esse deprê finale, mas eu estou revendo a cena do clive owen (esse é o nome dele, bendita wikipedia) com a julia roberts, e vou postar aqui as frases que eu gostaria de dizer pra ela, que ela nunca vai ler:

1
-why did tou tell me you wanted to have children?
-because i did
-and now you want to have children with him?
-yes.

2
-i dont give a fuck about the spoils!

3
-did you ever love me?
-yes.
*he cries on her shouder just as i did*


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