hoje eu assisti ao filme recomendado pela ruivinha dos correios, chamado "a vida secreta das abelhas", com a dulcíssima dakota fanning. aliás, estou baixando filmes freneticamente - bendita seja a comodidade oferecida pelo torrent - e a cada dia que passa me torno mais e mais uma pessoa normal, não-acadêmica. tenho preconceito com pessoas normais; como as pessoas simplesmente nao escutam música clássica, como passam anos sem ler um livro, como não conhecem obras básicas como o teto da capela sistina ou como as fotos de marlyn do andy warhol? eu nao exijo que todo mundo seja especialista em coisas eruditas, mas meu deus, a vida é uma só (em tese), e dura pouco se colocada defronte da quantidade de coisas boas que a arte produziu ao longo dos séculos, conheçamos ao menos o básico. nem dentro do cenário hipotético no qual nos dedicássemos somente a arte conseguiríamos consumir tudo o que foi produzido de qualidade. e não bastasse essa realidade avassaladora, a gente ainda insiste em assistir novela ou ouvir lady gaga (quando eu digo "a gente", refiro-me a uma idéia vaga e mal estabelecida da raça humana, a maioria estatística sem nenhum embasamento real senão o empírico do dia a dia). pois bem, eu, que me considerava secretamente melhor que os outros porque era minimamente letrado, estou somente vendo filminhos mainstream - justificando pra mim mesmo que eles possuem uma qualidade moderna -, ouvindo música não-erudita-pseudo-cult e começando diversos livros que não consigo terminar.
pois eu comecei falando justamente de um desses filmes mainstream. apesar da trilha sonora ser dispensável e da condução do roteiro ser previsível, o filme tem aquela ingenuidade de quem trata de assuntos tensos sem muita pretensão, e uma ou duas cenas que te deixam realmente envolvido. é um filme domingueiro aceitável, mas não notável o suficiente para ser digno de mais comentários. a questão não é essa. vejam bem, eu sou um cara contido, dificilmente me emociono com qualquer coisa, até porque sempre suspeito daquilo que tem antecipadamente a intenção de emocionar. todavia, na cena em que a dakota fanning desmaia ao tentar por a mão no peito da estátua de Maria, eu comecei a chorar copiosamente. tive que pausar o filme e fiquei uns 15 minutos deitado, chorando sem nenhuma continência. e agora, pensando sobre isso, eu creio que estou num estado de espírito tão frágil e desesperançado que qualquer estímulo exterior é uma choradeira em potencial. e eu não chorei porque a personagem estava passando por um drama interior complicado, nem porque o preconceito racial dos anos 60 dos estados unidos impregnava a temática do filme, mas por mim, exclusivamente por mim. me envergonhei do meu sofrimento diante da perspectiva de outros bem maiores, mas ainda assim fui covarde e chorei.
dessa experiência, acho que eu percebi uma coisa importante. é verdade que eu estou bastante tenso porque tenho a sensação de que a todo momento A Big pode estar com ele, e isso torna o que quer que eu esteja fazendo ridículo; estou decepcionado porque ela nao vem aqui nem me manda emails nem se digna a interagir de nenhuma forma, ainda que tenha alegado sentir minha falta. mas o principal, e eu senti isso claramente hoje, a razão pela qual eu estou amedrontado e deprimido, é porque eu acredito - medo, puro medo, mas como negá-lo? - que nunca mais ninguem vai me amar de novo, e que eu estou condenado a viver sozinho pro resto dos meus dias, carregando o fardo que só eu sei.