domingo, 30 de setembro de 2007

quem é júlia

júlia é, por definição, aquela que eu não tenho

terça-feira, 25 de setembro de 2007

nós, os boêmios

nós, os boêmios, não temos pai. não estamos de nenhum dos dois lados nem somos expectadores dessa guerra estranha entre o bem e o mal; estamos sós.
em geral temos dinheiro, mas não somos burgueses. é que não costumamos morar em casa limpinhas nem comprar roupas nem comer bem; optamos sempre pelo mais econômico, para podermos gastar mais nas bebidas e nas outras drogas (elas variam, dependendo do gosto de cada boêmio).
somos uma classe variada, cada um de nós é único. os verdadeiros de nós não andam em grupos muito grandes, nem fazem muito barulho. tem os que gostam de comemorar a vida, e estes soltam "ahs" e "ohs" lânguidos e belos, e até gargalhadas esparsas. são ótima companhia. tipo alegre-melancólico, eles tem o saudável costume de afastar a lembrança da morte. mas a maioria dos boêmios fica no seu cantinho, olhando pro palco ou pras pessoas, tentando não parecer excêntricos.
a propósito, temos lá nossas idiossincrasias, mas não somos excêntricos. eu particularmente abomino toda excentricidade pré-estabelecida que contamina a noite. mas admito que sem eles seria menos interessante; haveria tão somentes famílias centradas e felizes.
alguns de nós são bem apáticos e conformistas. não ligam pra nenhuma causa social ou pra revoluções de qualquer tipo que ultrapassem a nossa pele. eu só gosto de Revolution #1.
ah, mas estamos em extinção. natural, somos pouquíssimos adaptados ao meio. não há razão para levantar um estandarte a favor dos boêmios. isso seria muito atípico. mas, sabem, apreciamos os da nossa espécie, e é triste só esbarrar com um ou outro muito eventualmente.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

à uma poderosa succubus

cabelos desgrenhados, o sol de holofote
cansaço voluptuoso personificado
na prateleira do bazar exposto o pote
transbordando com um revolver imantado

mariposas barulhentas? pisamos nelas
num fugaz ataque incontrolável de tédio
e tremendo juntos derrubamos o prédio!
"estamos exaustos. fechemos a janela".

sem mais pudores, agarram-me os tornozelos
e em profunda agonia, caminho ao marché.
ali se faz todo tipo de crueldades.

tapo meus olhos, leio, não quero mais vê-los
ou aceitar que, neste entretempo, você
imiscuiu-se à poeira amena das tardes.

Miseri Córdia

Orgulho e honra, coisas que eu pensava ridículas, manifestações animais da mais baixa estirpe. Mas daí você percebe que esse mundo niilista faz as folhas caírem se você as soltar. E que os ímãs, quando aproximados, se atraem ou se repulsam, independentemente de você os compreender ou aceitar. E depois você pensa na velha árvore caindo no meio da floresta sem ninguém pra ver. Ela caiu mesmo?

Caiu.

Não caiu, não.

As vezes eu acho que nada é. Quantos bilhões de anos tivemos que esperar para nascer? 2? 3? (daí talvez percebam minha não-noção científica da evolução). Eu acho que nenhum. Um dia nascemos, e o tempo passou a valer algo. Antes eram ondas batendo em rochas, incessantes, semi-eternas, estúpidas, racionais, invariavelmente de acordo com as leis naturais do universo. F=ma, até onde eu sei.

Então vamos lá. Sejamos racionais, afoguemos o orgulho, a honra, o nonsense, o tesão, escapemos das cócegas do ridículo com amarga repressão.

Vêem, que ironia pobre a minha, truque batidíssimo falar de frente o contrário do que era pra ser dito. Taí no que deu entrar no curso de estudos literários e parar de ler poesia pra ler metacrítica. Desde o dia que eu comecei a gostar de Poe, soube que algo estava errado. Não consigo mais ler Drummond. Bandeira me repugna. O que me atraí em Bilac é outra coisa agora. E cruz e Souza é quase deus. Mas vejam só, se eu pegar as rebimbocas decadentistas agora, esse texto se implode. Estou nesse momento envergonhado da minha poesia medíocre, mas não menos que dessa prosa poética confessional, sentimentalóide e pegajosa.

O que me faz humano é minha capacidade de pensar que fujo, de qualquer maneira impossível, da rigidez niilista do mundo material. Vamos com calma, ainda sou ateu, não creio em qualquer coisa que cheire a místico. Mas meu pobre livre-arbítrio, atacado por todos os lados pelo darwinismo, destrinchado em transmissão de genes (tentativa imbecil de eternidade), anda bambeando nas pernas. Até as coisas menos plausíveis de explicação biológica (ahá, te peguei, desvenda isso agora!) são, depois de uma reflexão ponderada, encaixáveis na teoria. Malditos.

Me resta não ser ondas-pedra, pão-queijo, solta-cai. Resta me foder, ostentar orgulho, honra e teimosia, exacerbar essas características que, a princípio animalescas, se revelam agora distinções de humanidade. Porque o que nos faz humanos não é nosso maravilhoso intelecto, nosso poder de somar, lascar pedras e fazer prédios. Não. O que nos faz humanos é nossa burrice, nossa viscosa poesia. Porque, em supremo oxímoro, mesmo não vendo deus, eu quero ter uma alma imprevisível.

ps: ainda prefiro POEsia a Walt Whitman (haha, trocadilho infame). Não sei bem porquê.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

velho maldito duma figa!

eu sento, olho pra ele e digo "comecemos, meu caro". o sacana, vendo-me de volta depois dos berros que soltei (nunca mais volto aqui! nunca mais!), dá um leve sorriso por trás da barba de floresta que ostenta. eu não posso ver sua boca, mas seus olhos se contraem, denunciando o gesto sutil. essas bolotas azuis, escuras e densas, não aparentam o mínimo de cansaço. ele está lá pra quem chegar e desafiá-lo. nunca venci, mas estou convicto de que ele possuí cicatrizes em algum lugar (uma vez, quando tossiu, pensei ter entrevisto uma delas, mas é possível que fosse somente uma ruga mais aprofundada). com um gesto amplo, sua mão esquerda me oferece o primeiro floreio; eu não muito à vontade, tento estocá-lo com o movimento de sempre.
o velho nunca falou comigo. não sei seu nome, apenas sua alcunha triste e pomposa, através da qual muitos o veneram. nossa comunicação se resume a movimentos de mão, olhares cruzados e xingamentos de minha parte. é certo que alguns o desprezam por isso, mas gostaria de ver estes arrogantes derrotarem-no. pouquíssimos conseguiriam. é certo que ele não é o melhor do mundo, mas também é certo que está vivo até hoje. aliás, pior que a sensação de derrota é saber que ele não vai morrer antes de mim, e que outros virão e o desafiarão ainda por muito, incontável tempo.
depois de uma hora inteira de peleja, saio de lá exausto, suando frio, socando as paredes. não me despeço, mas o velho não se ofende fácil. acho que nunca o vi alterado. e temos uma ligação íntima de compreensão jamais experimentada por mim. é que ele sabe que eu preciso ir embora e amargar as frustrações, enquanto eu sei que ele está condenado a ficar lá, sem excitações, sem distúrbios, sem nada.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

10 regras de sobrevivência básica do léo

1-) NUNCA tenha presssa; você vai chegar atrasado, então coma com tranquilidade.
2-) não corra, pegue o circular interno.
3-) ande SEMPRE com seus fones de ouvido confortáveis
4-) NUNCA MAIS se envolva com:
4.a) garotas católicas
4.b) garotas boazinhas
4.c) garotas gostosas demais
5-) beba AO MENOS uma vez por semana (exceto quando estiver tomando antibióticos).
6-) não leia os textos teóricos chatos da faculdade; faça seu próprio repertório de leitura.
7-) durma muito, excessivamente, compulsivamente (aliás, ISSO você não vai conseguir).
8-) beba café (300 ml por dia, no mínimo)
9-) não compre um celular
10-) faça seus malditos poemas, mesmo quando você achar que não tem tempo (se você não tem tempo pra isso, não merece mais viver)

sábado, 1 de setembro de 2007

like a hurricane

tá bom, se é assim que o universo, as forças supremas do gorgonzola e o álcool querem, assim será. o que eu posso fazer? opor-me às mágicas da fada, seu toque dúbio e delicioso, em plena 2 e meia da manhã e com 1.5L de cerveja na cabeça? não sou tão tolo assim.
hoje saí sozinho; bebi, comi um pouco de queijo, ouvi jazz e ri de umas pessoas bobas. acho que na mesma circunstância que eu só havia um cara lá, todas as outras mesas estavam ocupadas ou por casais tristes ou por famílias deploráveis. quando eu fui pra lá com minha ex-namorada, não senti nada especial, mas hoje, olhando da mesa do lado, senti uma vergonha incrível de ter sido um daqueles casais. ainda assim, olhem só, gostaria de estar acompanhado. não por namoradas: essas são terríveis. apenas por namoradas em potencial (que, pelo amor de deus, nunca seriam minhas namoradas!). ou, obviamente, por júlia. com ela eu iria até o inferno.
sei que, durante o processo de purificação, pedi à garçonete mais bela uma caneta e um papel. ela me deu uma caneta, um guardanapo e um sorriso de piedade. não sei se saí no lucro, mas sei que com esses elementos cozinhei uma carta pra flávia. me certifiquei de que ela saiba disso, e espero sua resposta: se for minimamente amistosa, enviarei a carta-guardanapo. se não, bom, que fazer, vou continuar minha singela vidinha.
voltando ao passado de 3 dias atrás: festa do sinal, fui de amarelo e minha ex foi de verde. fiquei ilogicamente ofendido e triste, mas estou certo de que não fiquei atrás. por alguns dias estou livre de uma necessidade torpe, mas até quando? principalmente nas terças e quintas, com camilas secundárias e com fadas por todos os lados.

ressurection, once i thought i saw you on a crowded, hazy bar, dancing on a light, from star to star.

mas só impressão, você não estava lá mesmo. todavia, há presentes espalhados pelas carteiras, e talvez algo me seja confiado nessa improbabilidade nebulosa.

num post, eu disse que este blog não era lugar pra poemas. mas, vocês sabem, as coisas se "metamorfoseiam" bastante. e como não gosto mais do recanto, vou postar um poema aqui, sim senhor. afinal, sou niilista, dá licensa?

ah, sim, você, minha querida amiga esporádica, responsável por esse reavivar inesperado, deixe um comentário qualquer. o retorno do kailesh é sempre mais forte que o tiro.

beijos, senhoras e senhores, vivam e morram mais algum tempo,
léo




poema!



Resignação

À vista inebriante da luz, os insetos
com asas se lançam, seduzidos, à morte;
uns outros, desprovidos do alado suporte,
escalam as paredes e cruzam os tetos.

Justo fim tem a ganância desses ineptos,
que aos menores não competem certos esportes!
Não pode o fraco ter o destino do forte!
Nasce aquele impregnado de naturais vetos!

Também me puna o mundo por cobiçar ‘strelas,
que aos dedos dos deuses somente são possíves!
A perfeição restringe muito seus presentes...

Lançado à tirania dos pequenos níveis,
se perpetuo eu com o capricho de querê-las
logo, qual um inseto, ardo nas chamas quentes!