quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Miseri Córdia

Orgulho e honra, coisas que eu pensava ridículas, manifestações animais da mais baixa estirpe. Mas daí você percebe que esse mundo niilista faz as folhas caírem se você as soltar. E que os ímãs, quando aproximados, se atraem ou se repulsam, independentemente de você os compreender ou aceitar. E depois você pensa na velha árvore caindo no meio da floresta sem ninguém pra ver. Ela caiu mesmo?

Caiu.

Não caiu, não.

As vezes eu acho que nada é. Quantos bilhões de anos tivemos que esperar para nascer? 2? 3? (daí talvez percebam minha não-noção científica da evolução). Eu acho que nenhum. Um dia nascemos, e o tempo passou a valer algo. Antes eram ondas batendo em rochas, incessantes, semi-eternas, estúpidas, racionais, invariavelmente de acordo com as leis naturais do universo. F=ma, até onde eu sei.

Então vamos lá. Sejamos racionais, afoguemos o orgulho, a honra, o nonsense, o tesão, escapemos das cócegas do ridículo com amarga repressão.

Vêem, que ironia pobre a minha, truque batidíssimo falar de frente o contrário do que era pra ser dito. Taí no que deu entrar no curso de estudos literários e parar de ler poesia pra ler metacrítica. Desde o dia que eu comecei a gostar de Poe, soube que algo estava errado. Não consigo mais ler Drummond. Bandeira me repugna. O que me atraí em Bilac é outra coisa agora. E cruz e Souza é quase deus. Mas vejam só, se eu pegar as rebimbocas decadentistas agora, esse texto se implode. Estou nesse momento envergonhado da minha poesia medíocre, mas não menos que dessa prosa poética confessional, sentimentalóide e pegajosa.

O que me faz humano é minha capacidade de pensar que fujo, de qualquer maneira impossível, da rigidez niilista do mundo material. Vamos com calma, ainda sou ateu, não creio em qualquer coisa que cheire a místico. Mas meu pobre livre-arbítrio, atacado por todos os lados pelo darwinismo, destrinchado em transmissão de genes (tentativa imbecil de eternidade), anda bambeando nas pernas. Até as coisas menos plausíveis de explicação biológica (ahá, te peguei, desvenda isso agora!) são, depois de uma reflexão ponderada, encaixáveis na teoria. Malditos.

Me resta não ser ondas-pedra, pão-queijo, solta-cai. Resta me foder, ostentar orgulho, honra e teimosia, exacerbar essas características que, a princípio animalescas, se revelam agora distinções de humanidade. Porque o que nos faz humanos não é nosso maravilhoso intelecto, nosso poder de somar, lascar pedras e fazer prédios. Não. O que nos faz humanos é nossa burrice, nossa viscosa poesia. Porque, em supremo oxímoro, mesmo não vendo deus, eu quero ter uma alma imprevisível.

ps: ainda prefiro POEsia a Walt Whitman (haha, trocadilho infame). Não sei bem porquê.

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