eu sento, olho pra ele e digo "comecemos, meu caro". o sacana, vendo-me de volta depois dos berros que soltei (nunca mais volto aqui! nunca mais!), dá um leve sorriso por trás da barba de floresta que ostenta. eu não posso ver sua boca, mas seus olhos se contraem, denunciando o gesto sutil. essas bolotas azuis, escuras e densas, não aparentam o mínimo de cansaço. ele está lá pra quem chegar e desafiá-lo. nunca venci, mas estou convicto de que ele possuí cicatrizes em algum lugar (uma vez, quando tossiu, pensei ter entrevisto uma delas, mas é possível que fosse somente uma ruga mais aprofundada). com um gesto amplo, sua mão esquerda me oferece o primeiro floreio; eu não muito à vontade, tento estocá-lo com o movimento de sempre.
o velho nunca falou comigo. não sei seu nome, apenas sua alcunha triste e pomposa, através da qual muitos o veneram. nossa comunicação se resume a movimentos de mão, olhares cruzados e xingamentos de minha parte. é certo que alguns o desprezam por isso, mas gostaria de ver estes arrogantes derrotarem-no. pouquíssimos conseguiriam. é certo que ele não é o melhor do mundo, mas também é certo que está vivo até hoje. aliás, pior que a sensação de derrota é saber que ele não vai morrer antes de mim, e que outros virão e o desafiarão ainda por muito, incontável tempo.
depois de uma hora inteira de peleja, saio de lá exausto, suando frio, socando as paredes. não me despeço, mas o velho não se ofende fácil. acho que nunca o vi alterado. e temos uma ligação íntima de compreensão jamais experimentada por mim. é que ele sabe que eu preciso ir embora e amargar as frustrações, enquanto eu sei que ele está condenado a ficar lá, sem excitações, sem distúrbios, sem nada.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
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